Oeiras: Vítima foi confundida com agente da polícia
Morto à queima-roupa
Pouco passava das 15h00 quando os três ladrões, aparentemente muito jovens, encapuzados e armados com duas caçadeiras de canos serrados, mataram Noel Mendes com um só tiro no abdómen. Ao que o CM apurou o homem gritou ao ver o trio armado, o que terá contribuído para o inesperado disparo à queima-roupa.
Os assassinos puseram-se em fuga, a pé, em direcção às traseiras do edifício. Para trás ficou a vítima, envolta numa poça de sangue. Ainda foi socorrida no local pelo INEM, mas acabou por morrer.
Ao que o CM apurou, aquela zona, por ser bastante calma e pacata, é regularmente alvo dos assaltantes. Aliás, o mesmo posto de Correios foi roubado há cerca de mês e meio, embora sem tanta violência. A Polícia Judiciária investiga agora se serão os mesmos ladrões – pelo menos a descrição dos suspeitos confere. Está já na posse da videovigilância dos CTT.
Os moradores não acreditavam no sucedido. Leila Cunha trabalha junto ao local e ao ouvir o disparo saiu logo à rua. "Ouvi um grande estrondo e vim ver o que se passava. Foi quando vi o senhor deitado no chão. O INEM chegou para socorrê-lo, mas de nada adiantou...", relata a testemunha, acrescentando que aquele posto – numa zona residencial, com jardins, um lago e prédios baixos – já foi assaltado pelo menos duas vezes este ano.
NOEL DE AZEVEDO MENDES DEIXA MULHER E TRÊS FILHOS
Noel Edgar de Azevedo Mendes nasceu em Malange, Angola, a 12 de Agosto de 1947. Casou por duas vezes e teve três filhos, o mais novo dos quais actualmente com 32 anos. Trabalhava como mediador de seguros em nome individual e por isso o escritório e a sua casa têm a mesma morada. Apesar disso, não era um homem muito conhecido na zona.
Na altura em que foi baleado tinha ido ao posto dos CTT para enviar uma carta registada. Estava a sair quando foi confrontado pelos assaltantes, que o confundiram com um agente da PSP.
De acordo com testemunhas, junto ao corpo de Noel de Azevedo Mendes ficaram alguns objectos pessoais como a carteira, o telemóvel, as chaves de casa e os óculos escuros.
No local estiveram a Polícia Judiciária, a PSP e os Bombeiros Voluntários de Oeiras.
"É A PROVA DE QUE O GOVERNO NÃO VIU SINAIS"
"Trata-se de mais um acto que confirma a tendência de aumento da criminalidade grave e violenta e põe em xeque a justificação governamental de que esse aumento se deve à crise." É desta forma que o deputado do CDS-PP Nuno Magalhães resume a "morte perturbadora de mais um cidadão na periferia de Lisboa".
Recordando que em 2008 o crime violento aumentou 10%, Nuno Magalhães garante que o homicídio de ontem em Oeiras "não foi cometido por quem sofre com a crise, tal como o Governo tem anunciado. É um crime perturbante pelo carácter aleatório, mas também por se saber que o atirador pensava que estava a disparar sobre um agente da PSP".
As críticas são seguidas por Fernando Negrão, do PSD. "Trata-se da confirmação, para lá do aumento já conhecido, de que a criminalidade está a mudar. Há mais organização, mais sofisticação e os métodos usados são cada vez mais violentos", afirma o deputado.
"Ao contrário do que o Governo defende, não é apenas mais um caso isolado. É a prova de que o Governo fechou os olhos à realidade do nosso país e não viu os sinais que mostravam esta tendência", acrescenta Fernando Negrão.
Do lado do Bloco de Esquerda, Francisco Louçã confessou ao CM "lamentar muito a morte de um cidadão nestas circunstâncias e esperar que os criminosos sejam apanhados."
António Rodrigues, do PCP, admitiu que "este é um crime preocupante", mas que "não merece qualquer comentário especial por parte do Partido Comunista".
RELATÓRIO É HOJE APRESENTADO
O Relatório Anual de Segurança Interna (RASI) relativo a 2008 é apresentado publicamente pelas 16h30 de hoje, no Ministério da Administração Interna, em Lisboa. O ministro Rui Pereira irá confirmar o aumento de 10,7% no crime violento, comparativamente a 2007. No ano passado foram participados 421 037 crimes, o que equivale a mais de 1100 crimes por dia. Destes, 24 313 foram crimes graves e violentos, salientando-se os assaltos a bancos e a bombas.
RUI PEREIRA, MINISTRO DA ADMINISTRAÇÃO INTERNA: "OPERAÇÕES DE PREVENÇÃO BEM DIRECCIONADAS"
Correio da Manhã – Como comenta o homicídio de um transeunte à porta dos CTT de Oeiras?
Rui Pereira – Não comento crimes, cuja investigação compete às forças de segurança.
– O Relatório Anual de Segurança Interna de 2008 é amanhã (hoje) apresentado. Que tendências do documento realça?
– Na segunda-feira, o documento foi analisado no Conselho Superior de Segurança Interna. Amanhã [hoje] de manhã será discutido no Conselho de Ministros, e apresentá-lo-ei pelas 16h30. O documento refere uma travagem do crime participado no quarto trimestre de 2008.
– Mas confirma-se o aumento quer do crime participado quer do crime violento?
– Registou-se um pico da criminalidade participada nos segundo e terceiro trimestres de 2008, mas uma evidente desaceleração no último trimestre.
– Que explicação para essa desaceleração?
– As operações de prevenção da criminalidade levadas a cabo pelas forças de segurança (GNR, PSP, Polícia Judiciária e Serviço de Estrangeiros e Fronteiras), por indicação governamental, e a persistência das mesmas, levaram a uma queda do crime.
– Esse sucesso ficou a dever-se a uma reestruturação do trabalho das polícias?
– Na segunda metade de 2008 registaram-se as primeiras transformações na estrutura territorial da PSP e da GNR, e com isso conseguiram-se progressos no combate ao crime. As operações de prevenção criminal foram direccionadas para onde deviam ser.
– Irá amanhã (hoje) apontar novas estratégias de combate ao crime para o ano de 2009?
– Já o fizemos no início deste ano. As novas admissões na PSP e GNR (dois mil novos efectivos), a lei de programação e instalações das forças de segurança e a aprovação das novas leis orgânicas foram as soluções apresentadas.
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