
23 Março 2009 - 00h30
Lagares da Beira: Grupo armado agrediu idoso e sequestrou mulher
“Tremi de medo ao sentir faca no pescoço”
Esteve sequestrada mais de dez horas, foi ameaçada com uma faca mas manteve-se calma e conseguiu sair de "um verdadeiro pesadelo" sem ferimentos. "Só respirei de alívio quando saí e vi a Polícia Judiciária", contou Irene Santos, de 54 anos, pouco depois de ter sido libertada. A mulher foi levada à 01h00 de ontem da sua casa em Espariz, Tábua, por um ex-companheiro que tinha fugido da cadeia de Coimbra.
O evadido entrou em casa da vítima acompanhado de quatro homens e começou por agredir o companheiro de Irene, João Silva, de 90 anos. Depois, levou-a para Lagares da Beira, Oliveira do Hospital, onde ficou retida até perto do meio-dia.
"Era 01h00 quando bateram à porta, conheci um deles porque lhe tinha emprestado 750 euros para pagar a um advogado, há uns anos", contou João Silva, que teve de ser assistido no centro de saúde.
Sob ameaça de uma faca, Irene Santos foi obrigada a sair de casa com os sequestradores. "Tremi de medo ao sentir a faca encostada ao pescoço. O meu coração caiu-me aos pés", recorda.
Três elementos do grupo seguiram para casa da mãe do evadido, onde, com ajuda de outro irmão, mantiveram cativas nove pessoas, incluindo duas crianças, de seis e sete anos. Fizeram disparos de preessão de ar e atiraram telhas contra as viaturas das autoridades.
"As crianças estavam apavoradas e choravam", diz Irene, que falou "com o filho e com a PJ até que ele me apanhou e partiu o telefone".
Perto do meio-dia, os sequestradores sentiram-se encurralados, levantaram uma tábua do soalho e escaparam para a loja da casa, escondendo-se dentro de arcas de milho. Irene fugiu: "Como a porta estava trancada, saí pela janela da cozinha." As autoridades detiveram os quatro homens, que ofereceram resistência. O sequestro terminou sem feridos.
ATÉ A MÃE FICOU RETIDA EM CASA
Na casa onde Irene Santos foi mantida refém estavam, além dos quatro sequestradores, mais duas mulheres e duas crianças, de seis e sete anos. A mulher mais velha é a dona da casa e mãe dos três irmãos sequestradores. A mais nova é sobrinha de Irene Santos e mantém uma relação com um dos irmãos, sendo mãe da menina de seis anos. O menino de sete anos é filho de outro dos irmãos Caetano.
CADASTRADO PREPAROU CRIME
O sequestro de ontem foi praticado por seis homens, com idades entre os 30 e os 45 anos, três dos quais são irmãos, de apelido Caetano e naturais da zona de S. Romão, Seia. A família fixou-se em Lagares da Beira há alguns anos, mas não é bem vista pela vizinhança por se envolver em furtos e desacatos.
Tudo terá sido pensado por um dos irmãos José M., de 45 anos, que cumpria pena de prisão no Estabelecimento Prisional de Coimbra por roubo e violação. Teve uma saída precária e não regressou, estando por isso na situação de evadido. O cadastrado já teve um relacionamento com a vítima, terá voltado à cadeia ainda ontem e arrisca-se agora a que a pena seja agravada.
Um dos irmãos que vive na casa em que a mulher foi mantida refém foi detido por estar presente no momento do resgate, mas as autoridades acreditam que não esteve envolvido de forma activa no sequestro.
Os detidos foram ouvidos ontem na GNR de Oliveira do Hospital: os três irmãos e um quarto suspeito são hoje presente ao Tribunal de Oliveira do Hospital. Os outros dois cúmplices continuavam ontem à noite por identificar.
"SÃO PESSOAS PROBLEMÁTICAS" (Coronel Dias Rosa, Comandante da GNR de Coimbra)
Correio da Manhã – Como decorreu a operação de resgate?
Dias Rosa – Montámos um perímetro de segurança e tivemos negociadores e elementos da Companhia de Operações Especiais da GNR no terreno. A vítima acabou por sair pelo próprio pé.
– Os detidos resistiram à detenção?
– Ofereceram resistência física. No momento da detenção não tinham armas, mas durante a noite usaram uma pressão de ar para intimidar quem se aproximasse da casa.
– Os sequestradores já eram conhecidos das autoridades?
– São pessoas problemáticas, que têm posto em causa a segurança da vizinhança.
VIZINHOS DIZEM QUE SÃO "GENTE DO PIOR QUE HÁ"
Em Lagares da Beira, freguesia do Concelho de Oliveira do Hospital, a família Caetano não goza de boa reputação. Durante a manhã de ontem, foram vários os populares que se juntaram nas proximidades da casa e os comentários sucediam-se. "A GNR anda aqui todos os dias. Isto é gente do pior que há", disse um popular que não quis ser identificado. "Desde que aqui estão é uma roubalheira, desde ovelhas a sinos das igrejas, levam tudo", confirmou outro residente. Segundo a população, alguns elementos da família já se envolveram também em várias rixas e discussões.
DÍVIDA
João Silva, 90 anos, companheiro de Irene Santos, foi agredido por um dos sequestradores a quem emprestou 750 euros. "Disse que ia pagar e pagou-me com um enxerto de porrada. Atirou-me ao chão e deu-me pontapés na cabeça".
SAIBA MAIS
ATÉ DEZ ANOS DE PRISÃO
O artigo 158 do Código Penal prevê pena de prisão até três anos para punir o crime de sequestro e de dois a dez anos se houver "ofensa à integridade física grave".
443
Segundo o Relatório de Segurança Interna de 2007, foram raptadas ou sequestradas 443 pessoas, menos 114 (20,5 por cento) do que no ano anterior.
137
Ainda de acordo com o Relatório de Segurança Interna de 2007, foram, nesse ano, detidas 137 pessoas suspeitas do(s) crime(s) de rapto, sequestro ou tráfico de pessoas.
HOMEM E PORTUGUÊS
A maioria dos detidos são do sexo masculino e cidadãos portugueses. Ou seja, em 2007, dos 137 detidos pelo(s) crime(s) de rapto, sequestro ou tráfico de pessoas 114 eram homens e 23 eram mulheres; 104 eram portugueses e os restantes 33 estrangeiros.
NOTAS
TÁBUA: SEQUESTRADA EM CASA
A acção criminosa do grupo começou em Espariz, Tábua, na casa onde residem João Silva e Irene Santos. O homem foi agredido e a mulher obrigada a ir com eles para Lagares da Beira.
OLIVEIRA DO HOSPITAL: VIAGEM DE 40 KM
Entre a residência de Irene Santos, em Espariz, e a casa onde esteve sequestrada até ao meio-dia, em Lagares da Beira, a distância é de quase 40 quilómetros por estradas sinuosas.
APREENSÃO: MATERIAL ROUBADO
Findo o sequestro, a GNR fez uma busca à casa e apreendeu diverso material roubado, entre o qual estava uma mota, mangueiras, sacos de batatas, andaimes e um aquecedor.