
21 Março 2009 - 00h30
Gondomar: Acusou vizinhos de roubar e vender droga
Espancado até à morte
Alfredo Henrique Conceição, epiléptico, de 21 anos, morreu espancado por vizinhos, jovens como ele. Terá dito no bairro que alguns dos agressores roubavam e vendiam droga e eles vingaram-se. O crime ocorreu na tarde de domingo, no bairro dos Carreiros, Rio Tinto, Gondomar. Alfredo Henrique não resistiu aos ferimentos e morreu anteontem à noite no hospital de Valongo.
"Pára! Já chega!" Estas foram, segundo Samuel, as únicas palavras que o vizinho Alfredo disse quando estava a ser espancado pelo grupo de jovens, entre os 17 e os 22 anos.
Samuel é apontado pelos moradores como um dos suspeitos da agressão, mas ao CM afirma que apenas se envolveu na confusão para tentar acabar com a pancadaria. "Eu vi-os a baterem-lhe e meti-me ao meio para separar. Não bati no Henrique", disse categoricamente. Samuel acusa sobretudo um jovem do grupo de ter dado vários pontapés a Alfredo Henrique, mas com a ajuda de outros jovens. E agora diz ter medo de retaliações do gang envolvido na tareia à vítima mortal.
Amedrontada está também a irmã do jovem espancado mortalmente. Fátima Conceição recebeu, entretanto, ameaças várias através de mensagens para o seu telemóvel. "Ó chiba, foi o teu irmão e agora vais tu" é o conteúdo de uma das SMS que a jovem de 19 anos mostrou ao CM. A jovem terá denunciado à polícia as agressões ao irmão epiléptico.
"Ele nem quis ir ao hospital no domingo. Só foi no dia seguinte e até disse que tinha caído da banheira porque estava cheio de medo", contou Fátima.
A jovem garante que o grupo agressor foi chamar Alfredo Henrique a casa, no domingo, e que a tareia foi assumida como um aviso para ele não falar, no bairro, sobre algumas coisas que o grupo fazia.
A investigação está a cargo da PSP de Rio Tinto e o caso ainda não tinha sido ontem comunicado à PJ.
MORADORES REVOLTADOS
Quando souberam da morte de Henrique, os moradores do bairro dos Carreiros saíram à rua revoltados com a brutalidade da agressão e não tiveram medo de apontar o nome dos suspeitos. Ao CM repetiram, sem pejo, as alcunhas dos jovens envolvidos no espancamento.
A fúria dos vizinhos de Henrique vira-se também contra uma outra moradora do bairro. "Ela viu tudo da janela de casa, mas nem saiu à rua porque um dos rapazes que bateu é da família dela", disse Conceição Cutelo, revoltada.
Ontem, a PSP foi chamada a intervir para acalmar a revolta dos moradores. A polícia está a investigar o caso, mas até ao fecho desta edição não havia qualquer informação sobre detenções. Durante a tarde de ontem alguns dos suspeitos apontados pelos vizinhos permaneciam em casa e outros estavam em parte incerta.
JOVENS VIOLENTOS EM BAIRRO PROBLEMÁTICO
Alguns jovens do grupo, apontado pelos moradores do bairro como autores da agressão a Henrique, estão referenciados pela polícia de Rio Tinto como suspeitos de vários assaltos a estabelecimentos comerciais na zona. Várias fontes afirmam que aquele bairro é um local de tráfico de droga e que alguns dos jovens que ali moram têm armas. As persianas das janelas da casa de Alfredo Henrique estão cravejadas de tiros que terão sido disparados nos últimos dias.
Domingo não foi a primeira vez que os jovens do bairro se envolveram em rixas violentas. Alfredo Henrique não era bem visto pelo grupo, tido como muito violento, porque não tinha medo de contar pelo bairro que os vizinhos vendiam droga e eram os responsáveis por muitos dos assaltos feitos às lojas das redondezas desde há vários meses.
PORMENORES
FAMÍLIA
Rosa e Fátima Conceição, mãe e irmã da vítima, moram em Rio Tinto mas são naturais de Lousada. O pai de Henrique morreu há cerca de três meses, por doença.
FUNERAL
O corpo de Henrique vai a enterrar hoje de manhã, no cemitério de Nespereira, Lousada. Devido às dificuldades financeiras da família, a Junta de Freguesia de Rio Tinto vai pagar o funeral e prestar-lhes apoio psicológico.
CRIME
A agressão a Henrique é um crime de ofensas corporais agravadas pelo resultado, neste caso a morte, podendo resultar em 13 anos de cadeia.
AUTÓPSIA
Segundo a família, Henrique sofreu lesões graves no rosto, abdómen e costas. O resultado preliminar da autópsia refere, no entanto, um caso de doença. A demora em recorrer a tratamento hospitalar pode ter agravado o ferimento.
Manuela Teixeira
Fonte: Correio da Manhã